Excêntrica e açucarada, a inglesa Barbara Cartland é a autora mais traduzida no Brasil
NOVEMBER 11, 2012

RIO – ‘Aforça do amor”, “Bandido sedutor”, “Coração roubado”, “Amantes no paraíso” ou “Castigo de amor”. Nunca leu nenhum destes livros? Alguém à sua volta já. São todos da inglesa Barbara Cartland, a autora mais traduzida para o português, segundo índice de monitoramento da Unesco, com 324 edições publicadas no Brasil.
Cartland, morta aos 98 anos, em 2000, foi massificada no país por meio de coleções vendidas em bancas e hoje tem sua obra difundida até em ebooks e audiobooks, ganha páginas de admiração nas redes sociais e faz a cabeça de mulheres que sonham com romances envolvendo mansões vitorianas e paixões incandescentes. Mas em tons mais inocentes do que os 50 tons de cinza tornados best-sellers.
Desbancando Agatha Christie
No mundo inteiro, Agatha Christie, Julio Verne e William Shakespeare lideram as listas de obras mais traduzidas. No Brasil, a senhora dos livros é Cartland. Agatha Christie fica em segundo (307 edições), e o escritor de autoajuda Joseph Murphy em terceiro (244).
O autor de renome literário com mais obras traduzidas para o país é Gabriel García Márquez (123), em décimo. Em relação a obras brasileiras traduzidas no mundo, Paulo Coelho lidera (1.030 edições), Jorge Amardo fica em segundo (416) e Leonardo Boff, autor da Teologia da Libertação (298), é o terceiro, de acordo com o Index Translationum, mantido pelo organismo da ONU.
Barbara Cartland escreveu 723 livros, que foram traduzidos para 38 países. O Livro dos Recordes atribuiu a ela os títulos de autora com mais de um bilhão de livros vendidos no mundo e de mais obras escritas em um mesmo ano: 26, em 1985, média de um livro a cada duas semanas.
“Foi a mais prolífica autora do século XX. Ela deixou assombrosos 160 manuscritos não publicados, que decidimos publicar. Estes excitantes novos romances formam ‘The Barbara Cartland Pink Collection’, através do qual minha mãe poderá continuar a levar amor e felicidade para milhões de leitores”, escreveu Ian McCorquodale, seu filho mais velho, responsável pela comercialização de sua obra, no site que leva o nome da autora.
Os romances de Barbara Cartland têm enredos simples, como o de “A força do amor”. Passa-se nos “últimos dias da sociedade vitoriana” (1837-1901), contando a história de Corina, uma “governanta incomum”. “Apesar de pobre, era jovem, linda e tinha, sem dúvida, traquejo social.” Carina sofre até que o amor apareça “com suas asas salvadoras”.
Nas redes sociais, admiradoras dividem seus romances em arquivos baixados gratuitamente sem pagamento de direitos autorais.
— São livros que fazem as mulheres sonhar. Na época da minha mãe, eram considerados coisas de mulher sem vergonha. Eles me fizeram gostar de ler, de escrever — conta Luciana, administradora de um blog que compartilha livros.
A história de Barbara Cartland parece com a de suas personagens. Em seu obituário, o jornal inglês “The Guardian” a chamou de “Rainha do Amor”. Lembrou que ela nascera pobre, mas deslumbrantemente linda. “Pobre eu posso ser, mas comum jamais”, definia-se à época, conforme revelou em uma de suas cinco autobiografias publicadas.
Casou-se com um membro da aristocracia rural e foi para Paris comprar roupas. Lá, apaixonou-se por outro homem, “de forma ruinosa para seu casamento, sua posição social e suas finanças”. “Estava em êxtase, completamente dominada por ele, como só uma mulher estúpida pode ser”, recordou-se. Contou ter recebido 46 propostas de casamento. Aceitou três. As 80 anos, confessou que “nunca gostou de ser tocada”. Teve três filhos.
Biografia de Churchill
Os livros de Barbara Cartland eram ditados, geralmente em sentenças de um só parágrafo. Dedicou-se também a livros infantis, radionovelas e dicas de beleza. Fez biografias de Churchill e Noel Coward. Sua última obra é de 1997 (“Amor, mentiras e casamento”). Garantia que sua longevidade devia-se a 60 pílulas diárias de vitamina.
Vivia numa casa de campo com 12 empregados. Sempre vestida de rosa, nos anos 1990 resolveu escrever o próprio obituário e o enviou aos jornais britânicos. Justificou: “Eu tenho sofrido uma certa quantidade de provocações e às vezes tenho sido ridicularizada pela imprensa.” Era bem-humorada: “Os dois melhores exercícios são fazer amor e dançar. Mas só em um deles é preciso ficar na ponta dos pés.”
Barbara Cartland deixava clara sua ideia de moral: “Você pode manter seu rosto ou seu valor. Aconselho manter o rosto, para o qual as pessoas olham primeiro.”
Como funciona o índice da Unesco
As bibliotecas nacionais enviam à Unesco informações sobre obras traduzidas que recebem das editoras de seus respectivos países. Alguns enviam informações anualmente, outros com bastante atraso. É um panorama incompleto, mas único. Permite uma série de acompanhamentos da cultura mundial.
Entre 1970 e 2011, foram traduzidos mais de 2,1 milhões de títulos no mundo, sendo metade literatura. O sociólogo holandês Johan Heilbron usou o banco de dados para constatar a dominação da língua inglesa no fluxo mundial de livros. As traduções do inglês saltaram de 45% para 59% do total de livros. Entre 2000 e 2011, foram traduzidas no Brasil 3.414 obras, sendo 65% do inglês.